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Aventuras de um português na Alemanha

Estou de volta

Após mais de 2 anos de ausência decidi retomar o meu blog.

Mais do que as saudades da família, do calor de Portugal, da francesinha ou da Superbock, sinto necessidade de exprimir aquilo que sinto ao ler e ver à distância acontecimentos em Portugal, quer sejam políticos, sociais, económicos, entre outros.

Julgo que está na hora de, enquanto cidadão, publicamente dar o que acredito ser um contributo para um Portugal melhor. Estando na Alemanha há mais de 10 anos, sempre com um pé em Portugal, julgo que reuni muita experência que quero partilhar. Quem sabe algum politico, empresário ou cidadão comum leia o que escrevo e possa também dar a sua opinião. Esta é a obrigação dos cidadãos, este será o meu espaço de contributo.

Quem está a matar o pastel de nata?

Depois de Pedro Alvares Cabral ter descoberto o Brasil, parece que portugueses de repente descobriram nova mina de outro...o pastel de nata. Os turistas adoram, os portugueses adoram, e por isso, agora, até cafés franchisados dedicados a ele proliferam pelo país.

pastel de nata.jpgMas nem tudo o que reluz é ouro... Cada vez mais os cafés trocam o pastel de nata feito por pasteleiros pelo congelado. Chamar a esse pastel de nata é no mínimo uma ofensa a quem aprecia. A massa folhada espessa e que se desfaz mal se dá uma trinca é o primeiro sinal de que é "made in congelador". Os bordos queimados e o pouco recheio não deixam enganar.

Eu tenho de dizer que sou passado por pasteis de nata. A primeira coisa que faço sempre que chego ao aeroporto do Porto e espero por boleia é pedir um café e uma nata. Mas no aeroporto do Porto agora...só congelado. E os cafés, visto que têm mais margem de lucro e menos trabalho com...congelados, toca lá a vender...congelado! Já começam a ser mais os locais com pasteis de nata congelados do que os de pasteleiro. E isto para mim é uma grande fraude. Enganam-me a mim (à minha barriga desejosa de uma boa nata), mas enganam acima de tudo quem nunca provou: os turistas. Dizer (tal como num franchising que tem nome de nata e outros que proliferam nos shopings) que aquilo são pasteis de nata é chamar-me tanso, é matar a nossa culinária, a nossa cultura, as nossas tradições... apenas porque lhes dá dinheiro rápido, sem pensar que no futuro pode na verdade virar-se contra eles.

Desconsolado no aeroporto, resta-me então esperar pelo dia seguinte e ir à pastelaria do bairro para matar a a verdadeira saudade.

Quem quer ser parolo? faça um video de promoção do país

Adoro ver os comentários semanais do Professor Marcelo Rebelo de Sousa. Partilho de muitas opiniões que ele tem sobre os temas comentados, mas sugestão de se fazer um video pertensamente para passar uma realidade do que é Portugal na Alemanha é provinciana. E depois de ver o vídeo, parece passar a imagem de um país parolo. Listo algumas razões para justificar a ideia como absurda:

1 - Os Alemães até têm nesta altura boa impressão dos Portugueses. Mostrar este vídeo pode ter o efeito inverso.

2 - Se nós gastámos demais, a culpa é nossa. Comparar os desvaneios gastadores com os desvaneios de uma guerra é de mau gosto.

3 - Se fomos "explorados" pela Alemanha, como o video sugere, então os lorpas somos nós, que nos deixámos enganar por eles (se isso for verdade). Quem assinou a compra dos submarinos, foram os alemães que nos enconstaram uma bala à cabeça?

4 - Que culpa (ativa) tem a Alemanha dos políticos fracos, corruptos, que não têm visão estratégica que temos em Portugal?

 

Estas são apenas algumas das razões pelas quais considero este vídeo inoportuno e de pessoas que deviam mas é arregaçar mangas a trabalhar para melhorar o País, em vez de se queixar. Estou curioso de ver a reação dos Alemães ao vídeo, mas temo que possa fazer com  que eles passem a gostar um pouco "menos" de nós depois disto. Que aconteceria se Alemães passasem um video na RTP e SIC a falar das asneiras que fizemos nos últimos 15 anos? Eu não gostava de certeza...

os PIGS (Portugal, Ireland, Greece, Spain)

Esta é uma foto que tirei sexta-feira do jornal de economia belga L'Echo, enquanto esperava em Bruxelas pelo comboio de regresso a Frankfurt.

 

 

Nessa mesma manhã, a capa do jornal Frankfurter Allgemeine (jornal de referência na Alemanha) vinha em tamanho garrafal a parte de trás da moeda de um euro portuguesa, com o título "O fim da independência". O comentário ao símbolo da foto referia-se ao brazão português de 1144 (simbolo da nossa independência) que está impresso nas moedas de 1 euro portuguesas, para ilustrar o título do jornal. É triste, mas uma realidade...

Sinto vergonha pelo que não pude fazer pelo meu país, porque a verdade é que me apercebi pelo que tenho lido na imprensa internacional, que somos vistos na Europa como uns pobres coitados, atrasados e sem futuro. Se calhar isso sempre foi verdade, mas os nossos políticos conseguiram enganar-nos bem durante muitos anos...

Até há uns tempos tinha orgulho em dizer a toda a gente que sou português. Neste momento, tenho as minhas dúvidas (infelizmente). Não pelo país em si, mas pelo que fizemos dele! A vinda do FMI não será o fim do mundo, mas tem um significado triste. Nós não somos capazes de dirigir o nosso próprio país. A vinda do FMI na dácada de oitenta tinha outros contornos. Esta é mais séria, visto de um contexto europeu. A soberania económica afinal não a perdemos para Espanha. Perdemo-la sim para a Europa!

 

É a crise, morcão...

"Para tristeza dos defensores das virtudes da economia de mercado, a resolução mais rápida e sem dor dos problemas que se vivem no sector privado parece agora depender quase totalmente do sucesso da intervenção realizada pelo Estado."

 

"... a resposta que está a ser dada pelas autoridades varia de país para país, dependendo mais da gravidade da situação de cada economia e do equilíbrio das finanças públicas do que da ideologia defendida pelo respectivo Governo.
Só isso pode explicar que o exemplo de maior intervenção estatal durante a presente crise esteja a vir dos EUA, um país com uma economia tradicionalmente mais liberal e cujo presidente, George W. Bush, tem sido, ao longo dos seus dois mandatos, um acérrimo defensor da redução da presença do Estado na economia."

 

"Deste modo, os Estados Unidos, sempre citados como o exemplo do que é uma economia de mercado, têm neste momento um sistema financeiro em que, na prática, metade dos créditos à habitação são garantidos pelo Estado. Nem nos países europeus, como Portugal, em que existe um banco público com uma posição importante no mercado, se consegue actualmente encontrar uma situação semelhante."
 

in Público, 28/07/2008

 

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