Sábado, 17 de Janeiro de 2015

Porque não sou Charlie...

As reações emocionais após 12 pessoas terem sido selvajamente mortas por Jihadistas em Paris levou a que muitos dissessem que todos éramos "Charlie". Pois bem, eu não sou Charlie, e justifico isso usando as declarações do Papa Francisco esta semana sobre o tema: "Temos obrigação de falar abertamente,de ter essa liberdade, mas sem ofender."

Olhando friamamente para o assunto, vemos que o jornal Charlie Hebdo é na verdade um jornal radical que sempre vendeu à custa de gozar e ridicularizar de forma provocatória o islão, sem respeitar os valores dos outros. Eu posso não concordar com alguém , mas não posso abusar da liberdade de expressão para relevar essa discórdia. Algumas pessoas acham que democracia e liberdade de expressão é poder dizer tudo que se quer sem sofrer consequências do que fazem. Mas isso é, na realidade, não democracia, mas sim anarquia: a democracia tem regras, por mais que custe a muitos.

No Ocidente sofremos desde há séculos do síndroma do "Ocidentocentrismo", pois queremos que todos sigam os mesmos valores que nós, acreditando no "mundo perfeito". Esse mundo utópico não existe no entanto, o mundo real é feito de diferentes culturas, diferentes estágios cilivilzacionais, diferentes crenças e formas de reagir aos problemas. Quando alguém se sente ofendido, são diversas as formas de reagir: alguns ignoram, outros processam judicialmente, outros darão um "excerto de porrada", outros atirarão um sapato... e outros atiram para matar!

A atuacão na Primavera Árabe, a guerra no Iraque e no Afganistão, etc... tem e teve em teoria princípios nobres e que parecem fazer sentido lógico: trazer democracia a esses povos. Mas a realidade teve efeitos totalmente contrários. Não só não aconteceu, como criou e aumentou guerras civis, mortes em massa, fome. Trocar um ditador (por mais tirano que seja) por mais miséria ainda faz pensar: "Pior se calhar a emenda que o soneto".

Os atentados de Paris foram feitos por extremistas, pessoas para quem a morte é uma forma "normal" de reação ao que discordam. É repugnante e revoltante, mas infelizmente existem e não apenas jihadistas: há extremistas islamistas, extremistas cristãos, ou desligados simplesmente da religião: basta pensar no ataque na ilha de Utøya, os vários atentandos nos EUA em escolas, ou movimentos independentistas na Europa e no Mundo em geral.

Voltando ao caso de Paris, pergunto: Na perspectiva de um cidadão do Afganistão ou Siria, que sofre com a guerra todos os dias, lida com a morte todos os dias (dezenas ou centenas de pessoas), e ainda se sente "gozado" na sua religião, porque ficamos admirados por eles usarem atentados como ato banal de vingança? Talvez uma das únicas armas de arremeço que têm ao seu dispôr e com as quais convivem?

Ver isto como atentado à liberade de imprensa é ver a questão de forma minimalista. Isto tem mais a haver com a forma como se vê o mundo. E nós, ocidentais, não temos sabido respeitar essa diferença. Quase sempre atuamos em nome de causas que muitos desses povos não "compreendem" nem sabem viver com elas. É como espicassar um ninho de vespas: fazemos isso e depois ficamos chocados quando há "retaliação" por parte deles.

Ver uma guerra na TV parece inofencivo, é longíquo, ignoramos enquanto jantamos felizes e em paz em nossas casas com a família a ver telejornais. Mas quando essa cruel realidade nos bate à porta, aí acordamos e ficamos em choque. E se relembrarmos essas imagens da TV, vemos que na verdade somos tão bárbaros como eles, mas usando drones, em vez de Kalashnikovs.

Quanto vale a vida de um cidadão ocidental, pergunto? Só por curiosidade, na mesma semana em que morreram 15 pessoas em França, morreram milhares num genocídio na Nigéria. Foram poucos os meios de comunicação social que falaram disso, afinal morreram bem mais do que 12 jornalistas. Talvez porque é longe... são pretos. A reação dos media ao ataque de Paris foi na verdade uma reação de medo por parte dos jornalistas. Foram mais eles do que dos cidadãos comuns a manifestar a sua apreenção, porque vêm agora vêm que o abuso da liberdade de experessão pode ser mais dolorosa do que um banal e inconsequente processo difamatório em tribunal..

Por tudo isto, e muito mais digo com bastante certeza: "EU NÃO SOU CHARLIE".

sinto-me:
publicado por bruno@deutschland às 19:06
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1 comentário:
De Adriano de Almeida a 24 de Setembro de 2015 às 16:32
Achei interessante este seu artigo, que vem na mesma linha de outras opiniões manifestadas publicamente desde a ocorrência dos factos. Não me considero de modo algum radical, mas discordo grandemente desta sua opinião. Diz que o Charlie Hebdo sempre gostou de ridicularizar, provocar, sem respeitar opiniões dos outros. Bem, eu considero-me católico, e, lembro-me daquele desenho do Papa e o preservativo, desenho esse, que se poderá considerar na linha provocatória do Charlie. Sim, o Charlie, tanto quanto pude constatar era provocatório, ridicularizava, e acho que bem, fazia pensar; coitados de nós, digo eu, se não somos capazes de ver estas críticas. Claro, também teremos de esperar que as reacções poderão não ser brandas... Na verdade, acho que o que o Charlie fazia nada tem a ver com falta de respeito por opiniões alheias... é apenas o meu modo de ver. Um dos altos valores que conseguimos atingir, nós os ocidentais, mas talvez não só nós, espero, é precisamente esta capacidade de vermos a liberdade de pensamento e expressão como uma sadia maneira de levarmos mais longe a também capacidade de aprendermos com as opiniões que os outros manifestam. Poderemos sempre confrontá-los mediante o diálogo... não temos é o direito de atentar fisicamente contra seja quem for. Parece-me ser esta a única perspectiva correcta; poderei ser cobarde e não ser Charlie em situação de medo por retaliação de quem mata por divergência de opinião, mas se isso se tornar notado, serão as minhas opiniões a correrem o risco de nunca mais serem toleradas, e, menos, expressas, e, ainda muito menos, respeitadas. Expressão livre não colide com qualquer regra da democracia, é regra da democracia. E isto nem sequer está de mãos dadas, a meu ver, com a barbaridade de que também nós somos capazes, em guerras, antes pelo contrário. Não aprovo guerras que não sejam de auto-defesa, não inicio uma guerra contra alguém só porque manifestou uma opinião contrária à minha.

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